Presidente da mineradora Vale fala das tendências para o futuro

image_pdfimage_print

A tendência das pessoas agora é serem mais simples”, diz presidente da Vale


Roger Agnelli afirma que os consumidores tenderão a se contentar com aquilo que é essencial. E que as novas gerações estão vindo mais verdes, inclusive os filhos dele.

ALEXANDRE MANSUR

O empresário Roger Agnelli, que preside a Vale, uma das maiores mineradoras do mundo, é uma das últimas pessoas que deveria pregar o desapego a bens materiais e a prática de padrões de consumo mais simples. Afinal, a indústria que ele dirige depende da demanda de matéria-prima para suprir o sonho das pessoas. Mas Agnelli prevê que, seguindo as tendências de mudanças na economia para enfrentar a crise global do clima, o padrão de consumo – principalmente nos países mais ricos – vai mudar. É o que ele conta nesse trecho exclusivo online de sua entrevista concedida a ÉPOCA.

ÉPOCA – O senhor diz que melhorar o padrão de vida das pessoas se traduz em consciência ecológica naturalmente. Isso aconteceu com os países desenvolvidos?
Agnelli – Sim. Só que eles já poluíram e destruíram. Estão em um padrão de consumo incompatível com o meio ambiente. A tendência das pessoas agora é serem mais simples. O padrão de consumo deve ser afetado. Nos países frios, não sei se fará sentido ter uma casa enorme e gastar tanto com calefação.

ÉPOCA – Mas teremos que reduzir nossas ambições materiais?
Agnelli – Não. É se contentar com aquilo que é essencial. Você não precisa de uma casa de 3 mil metros quadros. Uma de 500 já está bom, né? Isso vai virar uma questão de consciência. Hoje a ideia é ter o maior possível. Agora, talvez, com o pensamento ambiental, a moda seja desejar o menor possível.

ÉPOCA – Se o consumidor desejar uma casa menor, vai consumir menos matérias-primas, que sustentam empresas como a Vale. Como isso impactará as empresas?
Agnelli – Haverá uma redistribuição de renda naturalmente no planeta. As regiões menos afetadas ambientalmente terão que consumir e se desenvolver. Cabe aos produtores aprimorar a tecnologia para impactar menos o meio ambiente. Mas não vai faltar demanda de matéria-prima para os produtos.

ÉPOCA – O senhor acha que os investidores começarão a avaliar a emissão por dólar de uma empresa como qualquer outro indicador financeiro?
Agnelli – Sem dúvida. As empresas terão que fazer isso para se colocar no mercado. Quando mais elas se mostrarem, mais os investidores selecionarão. Hoje a sustentabilidade é um fator de argumento de venda e decisão de compra. O consumidor está disposto a pagar um pouco mais para algo que afeta menos o meio ambiente. Ou afeta menos ele. Nas prateleiras, as pessoas pagam mais por produtos orgânicos.

ÉPOCA – Paga porque acredita que faz bem para a saúde dele. Mas pagaria mais por uma geladeira cujo aço não foi produzido com carvão de florestas nativas?
Agnelli – Talvez não o consumidor lá na ponta. Mas o fabricante do carro vai comprar de uma siderúrgica limpa. E esta exigirá os controles do seu fornecedor minerador. A cadeia toda terá que trabalhar assim.

ÉPOCA – No mundo ideal, o investimento ambiental também deveria tornar a empresa mais eficiente financeiramente. Isso está ocorrendo?
Agnelli – A empresa fica mais eficiente operacionalmente, porque a consciência e a responsabilidade de não sujar ou destruir muda a cabeça das pessoas. Elas ficam mais produtivas. Acaba o desleixo. E também gera dinheiro. Em Barcarena, no Pará, quando transformamos bauxita em alumínio, geramos um rejeito de barro. Agora, estamos estudando como usar esse material em produtos como telhas. O sal que você tira da primeira camada de extração de minério é usado para pavimentar as estradas. Fica como asfalto. E seria um rejeito problemático para o futuro. Viraria um passivo caro para a empresa administrar depois.

ÉPOCA – O senhor acha que teremos um tratado importante em Copenhague?
Agnelli – Espero que sim. A expectativa é grande. Teve mudança de postura muito grande. O Japão e os EUA estão mais ativos. A China também. Não dá para fechar o olho. Já estamos em uma economia verde. Isso é irreversível.

ÉPOCA – Pensando num cenário em que países desenvolvidos tenham metas para agora, que os emergentes como o Brasil tenham metas a médio prazo, e que os países mais pobres não tenham meta nenhuma ainda, qual é a chance de a indústria migrar para os que não têm restrição nenhuma. E não para cá?
Agnelli – É uma possibilidade. Vai haver uma mudança no jogo geopolítico por causa disso. Teremos uma mudança grande de transferência de renda. De qualquer forma, para o Brasil é uma oportunidade extraordinária que precisamos aproveitar.

ÉPOCA – De onde veio o seu engajamento ambiental?
Agnelli – De infância. Meu pai era madeireiro no interior de São Paulo. Comprava madeira do Brasil todo para a serraria. Durante um tempo, foi o maior exportador de madeira vinda da Bahia. Eu cresci ali, vendo ele trabalhando com aquilo. Mas a consciência dele foi mudando. Um dia ele veio para mim e disse. Filho, não conheço nenhum madeireiro que não tenha sofrido uma tragédia familiar. E enumerou os casos dos colegas. Acho que é castigo pelo que fazemos, ele disse. Aí mudou. Comprou uma fazenda onde só criava gado para reprodução. Não tinha abate. Cercou 100 alqueires de mata nativa para preservação. E cuidou daquilo com cuidado. Tanto que a fazenda já foi vendida para uma indústria de celulose a reserva natural está lá até hoje. Eu, na juventude, já andei no interior de Mato Grosso derrubando floresta com trator e corrente. Agora junto espécies nativas da mata atlântica em minha casa para plantar. E isso está vindo na nova geração. Minha filha e meus filhos cobram isso. Eles já estão vindo mais verdes.

Matéria publicada na Revista Época, em 3 de outubro de 2009