O sonho do Apóstolo Pedro

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Um exercício de imaginação

O texto abaixo nos remete a um exercício de imaginação, próprio de uma  ficção científica, em que a figura humana de Pedro, tal como ele era ao tempo em que  conheceu e serviu a Jesus e, ignorando todos os séculos intercorrentes, trouxéssemos o querido pescador à grande praça, em Roma, que tem o seu nome.

(…) Um tanto perplexo, o homem de Carfanaum sente-se perdido no amplo espaço que se abre diante  dele. Faz algumas perguntas, aqui e ali – a ficção pode fazê-lo falar italiano moderno, com  sotaque, talvez.
Dizem-lhe que aquilo é a Piazza San Pietro e que o imponente conjunto de edifícios, ao fundo  e em torno, integra a Igreja que dá o nome à piazza e que lá dentro do mais imponente deles,  está sentado, num trono, aquele que o herdou, em linha direta do patrono da Igreja e da  praça. Que dali, aquele homem governa milhões de seres humanos que trazem o mesmo  designativo que se usou pela primeira vez em Antioquia – cristãos.
É possível até que lhe expliquem que há outros cristãos que não reconhecem a autoridade do sucessor direto de  Pedro, mas isso já seria outra história. O pescador resolve ir até lá para conhecer melhor o edifício. A primeira coisa que se nota é  que é um tanto diferente da Casa do Caminho, na antiga estrada de Jerusalém para Jope, onde  tudo começou, depois que tudo acabou, ou seja, depois da partida de Jesus.
Enfim, estamos  numa era de progresso e tecnologia. Pelo que se observa, a Igreja cresceu muito e, em  princípio, parece justo dispor de instalações condignas para abrigar aqueles que foram incumbidos de orientar a comunidade dos fiéis disseminados pelo mundo a fora.
Ao entrar pelos portais imensos, que contempla com simplória curiosidade, o visitante  verifica que as instalações não são exatamente condignas, mas palacianas, ostentosas,  recobertas de ouro e decoradas com incríveis obras de arte. Mesmo isso, contudo, pensa ele,  talvez seja admissível: afinal de contas, isto aqui não é Cafarnaum e nem estamos vivendo  mais no tempo de Augusto ou Tibério, numa poeirenta província distante.
Olhares curiosos e até divertidos acompanham a perambulação do pescador pelas imensas naves,  por onde circulam multidões de turistas apressados, coloridos e falastrões. Parece que ele  nem percebe que a sua figura distoa ali, na sua sandália desgastada e rústica, na qual ainda  há vestígios do barro deixado pelas últimas chuvas, nas trilhas que ele percorreu.
O manto que o cobre é limpo e claro, mas igualmente rústico e sem atavios. Uma bolsa de couro cru e  pobre pende do cordão amarrado à cintura. Não que traga grande coisa: um pedaço do pão que  sobrou de hoje, pela manhã, e algumas dracmas escassas, mas isso não o preocupa, dado que o  Mestre dizia que não era preciso levar ouro nem prata, nas tarefas que confiara aos seus  amigos mais próximos.
Simão bar Jonas vai de surpresa em surpresa. Segundo informes que continua a colher com um e outro, aquela estátua de bronze ali, à direita de quem entra, representa sua própria figura  humana. Está sentada, ricamente vestida, com todos os adornos da realeza. O pé tem um brilho  mais intenso, que ele logo descobre resultar do polimento de muitos lábios humanos que ali depositam beijos.
Aquilo o comove, é certo, mas o deixa também profundamente embaraçado. Por que razão, estariam beijando, simbolicamente, os seus pés? Que teria feito ele? Será que o haviam transformado em algum deus desconhecido? Ou num imperador, como Tibério ou Nero? Olhando as sandálias mal ajustadas aos seus pés de verdade, ficou, por um instante, a pensar  se aquela gente os beijaria, se, em lugar da estátua de bronze coberta de adornos ricos sentasse ele, ao vivo…
Que coisa mais fantástica tudo aquilo! Que estranha sensação de irrealidade, de pesadelo, de  alienação! Que multidão de perguntas sem respostas lhe acorriam à mente perplexa! Haveria  alguém por ali que soubesse (e pudesse) respondê-las? Foi então que ele se lembrou do homem sentado no trono. Ele deveria saber, tinha de saber.  Pois não era o chamado herdeiro direto da tradição? O mais acertado, portanto, seria falar  com ele.
De pergunta em pergunta, chegou a imponente cidadão abrigado atrás de não menos imponente  escrivaninha, numa sala que ficava nalgum ponto daquele labirinto de naves, corredores,  portas e salões.
O homem nem sequer o convidou a sentar-se e o visitante bem que o desejava, pois já sentia o peso do cansaço de todas aquelas andanças. Não que houvesse sido maltratado; pelo contrário, foi muito bem recebido, com um sorriso polido e palavras mansas. Infelizmente, dizia-lhe o  cidadão, o Santo Padre (Santo Padre?) não poderia recebê-lo tão cedo.
Era preciso marcar  entrevista, dizer ao que vinha, aguardar o chamado e, finalmente, comparecer – condignamente  vestido, observou, com um olhar significativo, o homem – em dia e hora que deveriam ser  rigorosamente observados.
O pescador concluiu que era tudo muito complexo e demorado e o seu tempo ali era escasso.  Uma pena! Ficaria, então, para outra oportunidade. Agradeceu ao cavalheiro imponente, fez  uma mesura desajeitada (o homem parecia tão importante!) e se pôs à disposição do secretário  que o trouxera até ali, de vez que jamais encontraria, sozinho, o caminho de volta à luz do  sol que brilhava lá na praça que tinha o seu nome.
Já na praça, olhou, mais uma vez, o edifício gigantesco e pensou: —Que pena! Nunca  precisamos marcar entrevista para conversar com Jesus… Não há dúvida que ficou tudo muito  complicado e estranho…
E, sem saber como nem por que, Simão bar Jonas viu-se novamente em Cafarnaum, a consertar  sua rede. André, seu irmão, olhava-o de maneira curiosa e interrogativa.
—Que há com você, Simão? Foi preciso chamá-lo três vezes! Você estava dormindo? Simão ficou em silêncio por alguns momentos. Em seguida, sacudiu a cabeça e comentou  enigmaticamente: —É… Acho que dormi. Parou novamente e completou: —E que pesadelo, meu Deus!
A brisa mansa, a rede nas mãos, a água plácida do lago, ali à frente, trouxeram-no de volta  à realidade presente. (Mas que seria mesmo o presente?) André não fez novas perguntas. O  irmão sempre fora dado a esses raptos e “ausências”, desde menino, quando parecia alhear-se  de tudo, esquecido de todos.
Nesses instantes, via coisas que ninguém mais via. Passados alguns momentos a mais, André repetiu a frase que Simão não ouvira por causa da sua  “ausência” (e como estava longe, ele!): —Eu te disse que temos de sair logo para o mar, porque, à tarde, vai chover. Simão correu o olhar experimentado pelo céu e disse: —Também acho. Iremos assim que acabar o conserto da rede. Falta pouco.

Lá no fundo da sua memória do futuro, contudo, via gente estranha beijando seus pés de  bronze e àquilo o perturbava mais do que ele gostaria de admitir. Sacudiu a cabeça novamente e resmungou algo que André não entendeu. Afinal de contas, fora  apenas um pesadelo sem sentido. Nada mais.” (…)


O texto é um enxerto do livro “Cristianismo: a mensagem esquecida”, de Hermínio C.  Miranda, pág. 184/187.